Itália multa e bloqueia navio de ONG alemã após resgate de migrantes no Mediterrâneo

Sea-Watch 5 foi retido por 45 dias e recebeu multa de 7.500 euros após se recusar a contatar autoridades de resgate da Líbia durante uma operação de salvamento

24/08/2026, 10:23Bruno Rocha
Itália multa e bloqueia navio de ONG alemã após resgate de migrantes no Mediterrâneo

O governo da Itália determinou a retenção administrativa por 45 dias do navio humanitário Sea-Watch 5, pertencente à organização não governamental alemã Sea-Watch, além de aplicar uma multa de 7.500 euros, valor equivalente a cerca de R$ 46 mil. A medida foi anunciada pelas autoridades italianas neste domingo (23), após uma operação de resgate de migrantes no Mar Mediterrâneo. Segundo o governo italiano, a embarcação descumpriu as regras estabelecidas para a coordenação de operações de busca e salvamento marítimo ao não seguir as orientações das autoridades responsáveis pela região.

A decisão foi confirmada pelo ministro do Interior italiano, Matteo Piantedosi, que defendeu a aplicação da penalidade e afirmou que as operações realizadas no Mediterrâneo precisam respeitar os protocolos definidos pelos Estados competentes. De acordo com as autoridades italianas, o navio deveria ter seguido as orientações de coordenação emitidas durante a operação após localizar pessoas em situação de vulnerabilidade em águas internacionais.

A organização Sea-Watch, por sua vez, confirmou a punição, mas contestou a justificativa apresentada pelo governo italiano. Segundo a ONG, a tripulação do Sea-Watch 5 resgatou seis pessoas em águas internacionais e comunicou imediatamente a ocorrência aos centros de coordenação de resgate da Itália e de outros países vizinhos da União Europeia.

A entidade alemã reconheceu, entretanto, que se recusou a entrar em contato com o Centro de Coordenação de Resgates Marítimos da Líbia. A organização afirma que tomou essa decisão por considerar que não havia condições de segurança para estabelecer a comunicação com as autoridades líbias. A Sea-Watch também relatou que agentes da Líbia teriam adotado uma postura ostensiva durante a operação de salvamento, argumento utilizado pela organização para justificar a decisão da tripulação.

O episódio provocou uma nova discussão sobre quem deve coordenar as operações de resgate de migrantes no Mediterrâneo Central e sobre os limites impostos às organizações humanitárias que atuam na região. O governo italiano defende que os navios civis devem obedecer às orientações das autoridades marítimas responsáveis pelas áreas de operação, enquanto organizações de resgate questionam a segurança e as condições oferecidas por determinadas autoridades líbias para o desembarque de pessoas resgatadas.

Representantes do partido governista italiano Irmãos da Itália (Fratelli d'Italia) também reagiram às declarações da ONG e classificaram como inaceitáveis as acusações feitas contra as autoridades da Líbia. O grupo político reforçou a posição do governo de que as organizações que realizam operações de busca e salvamento devem respeitar as normas estabelecidas pelas autoridades dos países envolvidos.

A retenção do Sea-Watch 5 faz parte de uma política adotada pelo governo italiano para regulamentar a atuação de navios civis de busca e salvamento no Mediterrâneo. As regras estabelecem procedimentos que devem ser seguidos pelas embarcações durante as operações, incluindo o cumprimento das orientações das autoridades marítimas e o deslocamento para os portos indicados após os resgates.

Com a medida administrativa, o navio ficará impedido de retornar ao mar durante 45 dias, período em que permanecerá retido pelas autoridades italianas. A organização Sea-Watch deverá avaliar as medidas que pretende adotar contra a decisão, incluindo a possibilidade de contestar judicialmente a sanção.

O caso ocorre em meio a um cenário de forte tensão política e humanitária no Mediterrâneo, uma das principais rotas utilizadas por migrantes que tentam chegar à Europa. Organizações humanitárias defendem a necessidade de ampliar as operações de salvamento e garantir proteção às pessoas encontradas em situação de risco no mar, enquanto governos europeus buscam aumentar o controle sobre as embarcações e estabelecer regras mais rígidas para as operações de resgate.