Venezuela sob escombros: entre a destruição causada pelo terremoto e a esperança de recomeçar
Documentário Original Itatiaia acompanha sobreviventes, equipes de resgate e famílias atingidas pelo terremoto de 24 de junho e revela os desafios de reconstrução em um país marcado por uma longa crise

O documentário “Venezuela Sob Escombros”, produzido pela Itatiaia, apresenta os bastidores da cobertura jornalística realizada no país após o duplo terremoto de 24 de junho, que deixou comunidades destruídas, famílias desalojadas e milhares de pessoas diante do desafio de reconstruir suas vidas. Três semanas depois da tragédia, a equipe desembarcou na Venezuela para acompanhar de perto a busca por vítimas, o trabalho de voluntários e socorristas e a rotina de moradores que perderam suas casas.
A reportagem percorreu áreas atingidas, incluindo La Guaira e Vargas, onde os sinais da destruição ainda estavam presentes. Prédios danificados, casas destruídas e famílias vivendo em condições improvisadas compunham o cenário encontrado pela equipe. Em meio à falta de equipamentos especializados, moradores e voluntários se organizaram para procurar sobreviventes e vítimas entre os escombros, utilizando marretas, enxadas, barras de ferro e outras ferramentas disponíveis.
O documentário também registra histórias de pessoas que passaram horas ou até dias sob os escombros, além de familiares que continuavam procurando informações sobre parentes desaparecidos. Médicos, equipes de resgate, autoridades, voluntários e moradores relatam as dificuldades enfrentadas durante os trabalhos de emergência e os obstáculos encontrados para atender uma população que já vivia sob forte pressão econômica e social.
A tragédia atingiu uma Venezuela que, antes mesmo do terremoto, enfrentava uma longa crise econômica, salários insuficientes, dificuldades sociais e um intenso processo de migração. Durante a passagem da equipe pelo país, a aparente normalidade de algumas regiões contrastava com os problemas enfrentados diariamente pela população. Carros e ônibus continuavam circulando, supermercados e estabelecimentos comerciais permaneciam abertos, mas, por trás dessa rotina, famílias relatavam dificuldades para manter suas casas, sustentar parentes e reconstruir projetos de vida.
Nas áreas diretamente atingidas pelo terremoto, entretanto, os efeitos da tragédia eram ainda mais evidentes. O cenário era marcado por poeira, estruturas destruídas, calor intenso e o trabalho contínuo de pessoas tentando localizar vítimas e recuperar pertences. Para muitas famílias, a preocupação já não era apenas encontrar sobreviventes, mas descobrir como voltar a ter uma casa, recuperar documentos, garantir renda e pensar no futuro.
A equipe da Itatiaia também encontrou uma forte rede de solidariedade e fé. Igrejas, comerciantes, vizinhos, abrigos e grupos de voluntários passaram a ajudar as famílias afetadas de diferentes maneiras. Pessoas que também enfrentavam dificuldades dividiram alimentos, ofereceram apoio e participaram dos trabalhos de resgate. Ao mesmo tempo, moradores relataram críticas à demora ou à insuficiência da assistência e apontaram as dificuldades enfrentadas para conseguir recursos e atendimento.
Entre os depoimentos registrados está o da fisioterapeuta Juseph Vargas, que teve a casa destruída pelo terremoto. Ao relatar sua experiência, ela deixou um pedido que marcou a equipe de reportagem: “Não esqueça da Venezuela”. A frase resume uma das principais preocupações dos sobreviventes: o medo de que, depois que as câmeras e as equipes de emergência deixem o país, as famílias atingidas permaneçam sozinhas diante de um longo processo de reconstrução.
A reportagem também mostra como a tragédia se soma a uma realidade marcada pela migração e pela separação de famílias. Muitos venezuelanos já haviam deixado o país em busca de melhores condições de vida, enquanto aqueles que permaneceram enfrentavam o desafio de reconstruir suas casas e suas fontes de renda. Para algumas famílias, o terremoto significou a perda de bens que já haviam sido conquistados com grande dificuldade.
A experiência da equipe também estabeleceu paralelos com tragédias vivenciadas no Brasil, especialmente em Minas Gerais, como os rompimentos das barragens de Mariana e Brumadinho e as enchentes que atingiram municípios da Zona da Mata. Em diferentes situações, a dimensão da tragédia pode ser medida em números, mas os impactos ganham outra dimensão quando são contados por meio dos nomes, rostos e histórias das pessoas diretamente afetadas.
O documentário mostra que, além da destruição física provocada pelo terremoto, existe uma segunda etapa igualmente difícil: o processo de reconstrução das vidas. Reerguer prédios, recuperar ruas e remover os escombros exige recursos, planejamento e tempo. Para quem perdeu a própria casa, familiares, documentos, trabalho ou estabilidade financeira, porém, recomeçar envolve também lidar com perdas emocionais e com a incerteza sobre o futuro.
Com reportagem e roteiro de João Felipe Lolli, produção associada do jornalista venezuelano Alex Carmona e edição de Arthur Gomides, “Venezuela Sob Escombros” reúne relatos de sobreviventes, voluntários, médicos, socorristas, autoridades e famílias atingidas para construir um retrato da Venezuela após a tragédia.
Mais do que mostrar prédios destruídos e operações de resgate, o documentário procura revelar as pessoas que permanecem entre os escombros. São histórias de perda, medo, solidariedade, fé, migração e resistência. Um retrato de uma Venezuela que não se resume à crise política ou econômica e que, mesmo diante da destruição provocada pelo terremoto, continua tentando encontrar forças para reconstruir o presente e acreditar no futuro.