Fiocruz alerta para riscos à saúde após chuvas históricas na Zona da Mata
Nota técnica da Fundação Oswaldo Cruz aponta impactos imediatos e de longo prazo na saúde pública após temporais que atingiram Juiz de Fora e região. Cidade já tinha 129 mil moradores em áreas de risco, segundo o Cemaden.

Uma nota técnica divulgada pela Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) acendeu o alerta para os efeitos sanitários das chuvas extremas que atingiram Juiz de Fora e outros municípios da Zona da Mata mineira. O documento foi elaborado pelo Observatório de Clima e Saúde do Instituto de Comunicação e Informação Científica e Tecnológica em Saúde (Icict/Fiocruz), em parceria com pesquisadores da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF).
Segundo a análise, o volume de 220 milímetros de chuva em apenas 12 horas superou a média prevista para todo o mês, configurando um dos eventos mais graves da história recente da região.
Impacto na rede de saúde
A infraestrutura de saúde foi duramente afetada. Em Juiz de Fora, 11 Unidades Básicas de Saúde precisaram ser fechadas temporariamente por alagamentos ou risco estrutural. O Hospital de Pronto Socorro teve o subsolo inundado, comprometendo serviços essenciais. Como o município é referência para atendimentos de média e alta complexidade na macrorregião Sudeste de Minas Gerais, qualquer interrupção provoca efeito cascata sobre hospitais de cidades vizinhas.
Três ondas de risco à saúde
A Fiocruz classifica os impactos sanitários em três fases:
Primeira onda (imediata):
Lesões traumáticas, afogamentos, soterramentos e acidentes com animais peçonhentos deslocados pelas enchentes.
Segunda onda (curto e médio prazo):
Risco elevado de surtos de leptospirose, hepatite A, doenças diarreicas, dengue e outras arboviroses, além de infecções respiratórias. O contato com água contaminada, lama e lixo acumulado favorece a proliferação de agentes infecciosos.
Terceira onda (longo prazo):
Agravamento de doenças crônicas por interrupção de tratamentos, insegurança alimentar e impactos na saúde mental, como ansiedade, depressão e transtorno de estresse pós-traumático.
O documento também alerta para riscos ambientais relacionados à presença de indústrias potencialmente poluidoras na região, já que enchentes podem espalhar resíduos químicos e contaminar solo, água e alimentos.
Números da tragédia
A tragédia deixou 72 mortos na Zona da Mata, além de um desaparecido. Ao todo, 6.710 pessoas ficaram desalojadas ou desabrigadas em Juiz de Fora, Ubá e Matias Barbosa.
De acordo com o Cemaden, Juiz de Fora já figurava entre as cidades brasileiras com maior número de moradores em áreas de risco — cerca de 129 mil pessoas vivendo em regiões vulneráveis a enchentes e deslizamentos. O órgão havia emitido alerta de risco alto na madrugada de 23 de fevereiro.
Para os pesquisadores, o desastre não pode ser explicado apenas pelo volume excepcional de chuva, mas também pela ocupação urbana em áreas suscetíveis e pela necessidade de maior investimento em políticas de prevenção e adaptação às mudanças climáticas.